domingo, 14 de dezembro de 2008

Eu, Minardi e Capitu


EU X DIOGO MAINARDI, da revista Veja

Gostaria de saber se o caro Diogo Mainardi leu a obra Machadiana ou assistiu a série Capitu com um olhar um pouco menos preconceituoso e pseudo-intelectual. Admito que a forma que o diretor da série usou técnicas nada usuais para ADAPTAR o livro Dom Casmurro, o que o, não sei se jornalista ou figurão, da Veja, chamou de “circo”. Mainardi, em sua onisciência e sabedoria, pergunta onde está Machado de Assis na minissérie; eu digo: na recepção do telespectador. O leitor de uma obra, apesar do autor ter escrito de uma forma, possui uma multi-perspectiva da obra, várias interpretações, logo, independentemente de dizer se Machado está ou não na minissérie, é melhor perguntar: “Machado está no modo como eu li seu livro?” A sociedade brasileira, mais precisamente a geração jovem (vide: futuro da nação), que mal e parcamente sabe ler e escrever, lê pouco ou nada. A literatura está afastada e hostilizada no meio que não deveria ter saído: a escola. Se, e não estou brincando, Mainardi perguntasse a um aluno de uma escola municipal quem foi Machado de Assis ou como é a obra dele, digo, pelo menos em minha cidade, que este aluno não saberia responder, pois este está mais preocupado sobre o funk mais recente ou se a Juliana Paes vai tirar ou não a roupa no comercial de cerveja. Se a ADAPTAÇÂO (logo não é a obra integral) fosse ao estilo de época, haveria menos espectadores, pois o horário destinado aos programas Cult é após a outros banais e idiotizantes, como Toma lá, dá cá, zorra total, casseta e planeta, etc. Daí a importância de meios mais inteligentes e menos maçantes para apresentar o belo mundo da literatura para o povo, alunos. Então, se após esses programas (tarde da noite) há poucos assistindo televisão, se a minissérie fosse em estilo “normal” e não “circense” seria CHATA. Isso digo eu, aluno de um dos colégios mais respeitados no Brasil (incluindo na constituição brasileira), admirador de Machado e escritor amador.

A série, pouco se distanciou de minha interpretação desta obra, quando a li. Bentinho, diante de seu ciúme e paranóia, é seco e desencantado no livro e continua, mesmo depois de velho, submisso e influenciado por Capitu, morta, através de todo o fascínio, beleza, dissimulação, e encanto de cigana dos “olhos de ressaca”, figura que a minissérie quis aproximar a popular interpretação de adúltera, quando nada podemos afirmar. José Dias é um vigarista, canastrão, não um muttley como foi chamado pelo senhor Diogo Mainardi. Admito que muito que foi tirado do texto original poderia estar na adaptação, e que Machado é mais complexo que isso. Mas ele não é zombado pela sociedade mesquinha que ele zomba. Para mim, foi uma experiência gratificante assistir essa obra, eu, que sou preconceituoso com adaptações, sejam elas televisivas ou teatrais, das obras, que, para mim, não devem ser alteradas. Eu, confirmo, fui seduzido pelo aspecto estético, musical e teatral apresentado pelo diretor, e consegui ter várias idéias para contos e poemas que de forma contrária não teria. Não foi uma minissérie abarrotada com aparatos e vestimentas rebuscadas que poucos entenderiam, mas minimalista na forma visual e menos apelativa, preocupada em tentar (outro ponto que admito: Machado realmente estava muito diluído na adaptação) preservar a “paternidade machadiana” e aproximar/paralelizar a obra com a realidade que vivemos, num dinamismo maior do que o método de ensino da literatura nas escolas. Se alguém abastardou Machado, eu ouso dizer que foram aqueles que ou não entendem-no ou não querem entender.

Então, se o senhor Diogo Mainardi quiser outra vez criticar ou depreciar uma adaptação, quer seja mal feita, mal interpretada ou distante do que o autor escreveu, que pelo menos tente entender a mente por trás do texto original e a nossa banal atualidade, fraca e sem futuro.