domingo, 10 de abril de 2011

Big Brother Você

Você acorda, coça os olhos, coloca um chinelo no pé direito e vai direto pro banheiro. Xixi, escovar os dentes, passar água no rosto. Vai na cozinha, pega o resto da pizza do dia anterior, volta pro quarto, liga a TV e volta pra cama. Assiste ao Bob Esponja, ri da cara da fofoqueira do outro canal e rapidamente se cansa daquilo que está na TV. Você vai pro computador e entra no primeiro site pornô que passa pela sua cabeça. Você faz o que tem que fazer, volta pro quarto, desliga a TV e vai dormir.

Hora e meia depois você volta ao ar, bota uma roupa decente e vai encontrar com seus amigos no shopping. Passa pelo porteiro sem desejar bom dia, por que na semana passada ele contou pro seu pai que você andava bebendo. Entra na van e vai pro shopping sem se preocupar com a vida. Sem se preocupar com a prova de amanhã, que poderia compensar o 0,7 tirado no último exame. Sem se preocupar que você deixou o computador ligado. Sem se preocupar com o engarrafamento que vai te atrasar. Você não se preocupa nem com o telefone tocando desesperadamente no seu bolso, por que a música no seu ouvido está absurdamente alta. O dinheiro na carteira é pouco, mas você não está nem aí. Nem aí, nem ali e nem em lugar nenhum.

Na verdade, por mais que você relute, você está em todos os lugares. Todas as câmeras estão voltadas para você, para a senhora rabugenta ao seu lado e para o garoto de colo que não pára de te olhar. Você não está nem aí, mas as câmeras fazem você está em todos os lugares.

Você não está nem aí até que você percebe que o engarrafamento foi causado por um acidente. E depois percebe que foi trágico, pois tinha um corpo no chão. E de repente você reconhece o grupo que está desesperado perto do corpo. Você nunca viu seus amigos tão agitados quanto naquele dia. Nem em raves, nem em shows, nem em lugar nenhum. O choro e agonia de cada um se misturaram ao seu choro e à sua agonia. Você acorda pra vida e desce desesperado pra tentar socorrer o corpo ensangüentado no chão, mas não chega nem perto por causa dos bombeiros e médicos.

E agora, mais do que nunca, todas as outras câmeras que não te miravam agora te fitam com zoom. Zoom na sua boca aberta, nos seus olhos cheios d’água, nas suas mãos e pernas trêmulas, nos seus joelhos sujos. Sua tristeza está sendo transmitida ao vivo e a cores para qualquer um que queira ver. O show da desgraça e o assassinato da ética e do bom senso são o divertimento das câmeras humanas, mostrando que até quem não sabe, faz ao vivo.

(Luto pelo ocorrido em Realengo no dia 07 de abril de 2011.)