domingo, 29 de abril de 2012

“Decifra-me ou te devoro”


Esse jeito de mulher-criança
Não esconde a criança-mulher
Não a esconde que sabe
E também sei que.
Com gritos de cumprimento
O castelo de cartas abalou
Enfraquecendo ambos
Cada disparo lançado.
Cada palavra é
Outras vinte tantas mais
E o poder dos olhos trai
Quando pensando tenta não sentir.
Se te privo de mim
Também me privas de ti
A flor camuflada vejo,
Ainda aparece no teatro armado.
Não aceitarei tua boca com dois nomes
O meu egoísmo abrange o teu,
Culpa e arrependimento
Não são uma opção.
Vive intensamente o que sente
Pois se não intenso for
Não existe
E vazio deixa.
Meu mistério é o teu
E o encanto continua
Pelo que conhecemos bem
Nos surpreender sempre.
De tanto que se faz forte
Frágil se torna junto,
Encobrindo as fraquezas
Para não sermos dominados.
Lembre que estes versos
Foram escritos por você neste papel,
“decifra-me ou te devoro”, dizemos
Teu espelho lhe diz “xeque”.

sábado, 7 de abril de 2012

Eu era um estranho na sarjeta quando começou a gotejar, leve e vacilante pelas árvores que gemiam. Correram todos para os táxis lotados e para as lojas abertas, que engordaram o caixa num instante. E os postes quase sumiam, de tão foscos que ficaram. Bateu o’clock e desabou aquela querida chuva de março.

Assobios pelas ruas dos carros e as latinhas de cerveja arremessadas para a calçada com toda a fúria dos pneus. Sabia que em poucas horas a sarjeta seria um rio dentro do Rio; e sem bóias para me salvar, por que ainda sentado estava lá? Era apenas mais um perdido nessa noite abafada. Nenhuma parte do terno estava seca, tampouco a minha alma. Deixei perdidos no chão o meu óculos, que de nada me serviam agora. A escuridão era mais embaçada do que meus próprios olhos.

Ainda doem os meus lábios da mordida que ela me deu, e do soco que levei da briga que puxei no bar. Foi apenas num sopro que da despedida em beijo passou prum olho roxo de um valentão na sinuca. Sirenes ecoam secas e quase mudas, água já nos joelhos e o céu cada vez mais pesado. Serão meus pecados tão terríveis assim para isso????

Eu até rio de pensar que semana passada tinha sido promovido e cheguei a pensar em comprar uma casa para morarmos. Não sabia que sua indecisão era tão grande assim... em que detalhes não reparei, que gestos eu não entendi, que palavras eu não ouvi? Diga! Devia ter levado era um tapa quando chegou-se a mim e com um beijo disse que era o fim. Mas sou um fraco. Saí em silêncio e aqui estou.

Meu silêncio grita pela minha covardia! E já sinto a água na cintura. É tarde para escapar do rio, é tarde para ter culhões e discutir que não acabou! É tarde para pedir socorro. Transformadores já estouraram, fios balançam, penso que vão cair....

De manhã serei um estranho com RG anunciado.

Vozes

Que fazer então desse latrocínio?

Desse sombrio estar e cego viver?

Tão duro o tapa desta dura pena

Dessa alma arrebentada

E desprezada a cada alvorecer.

Correm lágrimas pelo corpo seco

E suor na pele fria

E mal amada,

Porque viver dói

Mesmo só respirando.

Pulam murmúrios e sussurros

De galho em galho

E como gafanhotos

Destroem todo ouvido e coração que tocam;

Envenenando as impressões e lembranças

De cada zé sobre quando chegam.

Durma, querido espelho,

Durma para que não lhe devorem

Esses julgamentos alheios.

CANTA,



Canta sabiá,

Que rouco está o bem-te-vi

Perdido entre as torres

De petróleo a subir.

Canta, amigo meu,

Fingindo que o poste é verde

Canta sem a máscara de O2

Mesmo que só no playback.

Vamos Sabiá, não me desanime,

Lembre que as aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.

Simples dia era quando flash instante

E você ria de vergonha e desejo

Enquanto cada clic seu olhar libia.

Seus finos gestos,

Estáticos e eternos,

E toda a sua pele sorrindo para mim

Enquanto de fotos ia enchendo meu coração

E rabiscos de memória o cartão.

Teu doce e lindo rosto

Desbotou-se ao sol

Sobrando apenas o teu corpo

Nos negativos pra me recordar.

domingo, 4 de março de 2012

Fim dos olhos de ressaca


O que era e o que achavas que fosse
foi somente um instante.
Não houve revoluções, querida,
que pudessem ter soado os alarmes.
Ouça-me bem, não há nada a dizer
o passado foi-se e não peça que volte.
Se nem o sol é o mesmo a cada dia
nem as águas as mesmas que bebemos
por que pensas tu que mudaremos?
Foram apenas palavras,
apenas sonhos, apenas um vazio que ficou.
Perdeu-se tudo na maré traiçoeira
que antes tantos nos abençoou.
O que era o que achavas que fosse
foi somente um instante
somente um pôr-d-sol...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Espelho meu



Esse que vês
completamente desmontado
não é quem achavas
que nas rodas conversavas.
Esse rosto nu e cego,
seco e vazio
foi somente um desatino
um sincero repentino.
Não culpem as estrelas
pelo sal na face
e nem ao fogo
pelo desmate de pêlo.
Foi somente um instante
de lucidez e loucura
sede e culpa
desse estranho eterno.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Beco

Ao Saudoso Manuel Bandeira

Por trás desta insensatez, dessas cortinas mal feitas, este beco
o que tens?
que será deste silêncio cortado por garrafas quebradas
da bateria soando nos clubes
e das serenatas acolá nas janelas?
O que será desse não saber o que pensas
das fugas e tropeços
de enfrentar os fiordes da sarjeta
e os vômitos no lixo?
São apenas bêbados, poetas,
moldados vagabundos e sensíveis
ao álcool, às desilusões,
e à cada maria ou joana que julgou que tivesse piscado os olhos
nas fumaças dos cigarros.
São bêbados do samba-jazz do beco;
um beco que não é nada
apenas um beco.

Au revoir

e agora que já passou da meia noite e vivi 2 vezes a mesma hora deste sábado, o que sobra pois? Nada deste horário de verão que esquecerei feliz durante o ano que o dia dura demais... quanto mais demora a escurecer, mais demoro a me reconhecer. Gosto da noite, do seu clima, do seu cheiro, do seu gosto... das luzes vacilantes, do sereno a inundar a escuridão e de toda essa forma que o silêncio toma forma e se esvai no meu peito

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dez anos depois de hoje, meu filho me olhará e perguntará o que era o mico leão dourado. Em dez anos, não haverá florestas ou peixes no mar. Em dez anos, não terá mais guerras ou corrupção. Haverá paz, sim.

Dez anos, meu primeiro beijo, meu primeiro amor, meu primeiro casamento, meu primeiro filho. Paz, sim, como na música de Johnn Lennon. Ou não. Estaremos mortos. Dez anos depois, não saberei quem sou. Direi obrigado, antes de dizer adeus ao passado. E por favor, ao amanhã.

Dez anos, entrarei na igreja e ela me sorrirá. Em dez anos, fome e desilusão. Apenas uma década, ela me abandonará. Não saberei sorrir. Nem chorar. Dez anos depois de hoje, brotarão flores em Chernobyl e uma menina sorrirá. Em dez anos, meu neto achará uma concha na areia e virá correndo me mostrar. Vou rir, sem saber o que dizer. Ele nem existirá. Ninguém existirá.

Dez anos, talvez sim, talvez não, olharei no espelho e me tornarei velho. Uma década no futuro, descobriremos a cura para o câncer e talvez para o nosso egoísmo também. Aprenderei a dormir sem escutar estrondos pipocando no morro. Minha irmã não terá medo do escuro; eu não terei medo da luz.

Dez anos depois, gritarei Amo e Odeio na mesma frase pra depois desdizer. Meu amor também. Em dez anos, o sol explodirá. Em dez anos, o universo se formará. Dez anos depois, estarei nascendo. E morrendo. E crescendo. Como a mãe lua. Teremos poemas nos rostos e na sociedade.

Dez anos, e não irei mais votar, cansado de tanta hipocrisia. Tocando violão sentado na praia vendo o amanhecer comemorarei o fim do mundo. Sozinho. Com todo mundo. Novo começo? Nova humanidade.

Dez anos... pergunte para uma criança como será; não a um adulto.

Meia-noite

Não foram simples palavras, simples gestos gestos ou mesmo simples olhares. Não foram beijos banais ou abraços banais, sem carinho, sem gosto, sem cor. E no entanto, tudo jaz no sono e no esquecimento, amontoado naquela caixa de tralhas que por pura preguiça não jogamos fora. Ainda me lembro do nosso último carnaval, das lantejoulas, dos confetes, das serpentinas, e daquela barulhada na rua de todos gritando e cantando atrás da banda e do carro de som, e daquela melindrosa que com os olhos de ressaca puxava o palhaço como o mar que puxa depois de lhe deixar tonto.

Ah, esse carnaval, querida, lá no alto da serra, naquele vilarejo, aquele friozinho que à noite era tão romântico... mas eis que veio a ressaca violenta e arremessando-se contra o palhaço e a melindrosa jogou-os longe de si... e num instante, foi-se a rosa, o beijo e o carinho. E o palhaço vagando à praia na esperança de encontrar seu amor numa concha trazida pelo mar... Não houve anel, pena ou colar.. ou mesmo concha.
Foi-se tudo à meia-noite... e a cama chora sozinha... O carnaval, palhaço amigo, é um picadeiro vazio. A vida traquinas como sempre trouxe sua piada num espinho pequeno e venenoso... Esqueça palhaço amigo, essa lágrima, esse olhar, esse sorriso triste... não há mais show, a platéia foi-se embora. Então por que choras??? No silêncio da meia noite tudo se encerra, tudo se cura. Meia-noite, vês, hora de fechar a bilheteria... quando o sol vier saltitando pela serra, sorria, sorria como se não houvesse amanhã... as pequenas coisas são as mais belas, como o sol saltitante pela serra trazendo o cantar dos pássaros e toda essa ladainha melosa que ris agora.
E o palhaço sem a melindrosa nas noites perdidas da cidade maravilhosa... o que virá amanhã? Sorria, amanhã é um novo dia

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Recomeço?

Quando se pensa no futuro e se fica cheio daquelas idealizações, oq vc vê? deve ter quase 1 ano desde a minha publicação, e dói ainda me deparar com aquelas linhas. Não estou mais com aquela q achei q fosse para sempre, tbm não sou mais aquele que eu pensava que era. Mesmo com 2 décadas de vida, ainda pensava como menino. Agora... como um adulto? Mudanças interiores são mais difíceis de serem notadas que as exteriores (como o fato de eu ter começado a usar barba), tão imperceptíveis que nem mesmo notamos essas mudanças em nós mesmos. Gostos e pensamentos que deixaram de ser, estilos e personalidades antes desprezados, agora incorporados à cada célula do nosso corpo, nos fazendo deixar de sermos rebeldes sem causa para.... adultos?


Nem lembro-me mais como costumava ser, as minhas rebeldias, minhas inconsequências, meus conceitos e preconceitos, todas aquelas implicâncias e revoltas que hoje não fazem absolutamente NENHUM sentido. Então é agora, pai e mãe, que começo a ter vergonha do meu passado, da minha imaturidade, das minhas irresponsabilidades? Agora que olharei para aquelas fotos no computador (pq são constrangedoras demais para se estar no facebook) e pensarei: pq eu fazia isso? ou o que deu em mim nessa hora?
Final de faculdade, projeto de mestrado escrito, o fantasma do trabalho com carteira assinada e as pilhas e pilhas de contas que chegam pelo correio...
É, meus amigos,
é um novo começo ou um recomeço de vida? Não sei se estas letras serão duradouras ou efêmeras outra vez.... Desculpe Vitor, mas precisei retomar esse meu canto pra mim novamente.
abraços libertários